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A anticidadania em ser brasileiro

Somos seres de um lugar. Nossa existência, nossas memórias estão ligadas às construções ao nosso redor: a nossa casa, que tem cheiro e sentimentos, a rua que possui lembranças e diversão, a escola que gera em nós experiências incríveis. É a experiência no lugar, o nosso espaço vivido, carregado de significados emocionais. É a maneira que qualquer ser humano na face da Terra consegue colocar o sentido de sua existência. No Brasil, é a resistência a um país que se consolidou no desprezo aos mais pobres, em uma “casta” que ainda tem saudades da escravidão, que, para se sentir importante precisa diminuir outras pessoas às condições mais indignas.

A sociedade brasileira se construiu em uma ausência de cidadania. Pois possuir privilégios é a meta de alguns e a ideologia impregnada em todos. Por isso que o direito à cidade é negado: grupos econômicos do país, que prestam serviços públicos o fazem de maneira superfaturada, com atraso nas obras e, em boa parte, com material precário e serviço a desejar. Prefeitos, deputados ou governadores nem se constrangem diante do que ocorreu em Petrópolis porque pensam ter feito algo. Pessoas subiram nos morros para construírem sua existência e possuírem experiência com a sua moradia pela necessidade, enquanto a negligência do poder público escancarava-se. Morreram porque lhes foi negada a cidadania.

A cidade é uma produção de indignidade diante de nós, enquanto, silenciosamente, pessoas são invisibilizadas no campo. Em 2021, 503 mortes de crianças estão ligadas ao uso de agrotóxicos, em uma alta de 5% na mortalidade infantil em municípios do Sul e Centro-Oeste que recebem água de regiões de cultivo de soja, segundo a FGV. O governo Bolsonaro liberou às tantas o uso de agrotóxicos, enquanto deputados querem mudar o nome agrotóxico para tirar seu “tom” negativo. Porém, continua matando no campo por aquele que respira, que toca, que é banhado pelo avião que pulveriza e mata na cidade, com o veneno à nossa mesa.  

Cercando pelo outro lado, a morte por interferência da política militar atinge negros, jovens e periféricos. É a condição para, automaticamente, pensar ser bandido e condenar à morte em uma barbárie aos modos antigos. A pena de morte na prática em um país que deixa solto quem tem dinheiro e preso por muito tempo aquele que roubou para comer. E comer tem se tornado impossível para 17 mortos por dia pela desnutrição.

É um país com portas abertas à morte pela violação aos direitos humanos, na normalidade da violência contra a mulher, no assassinato de LGBTQIA+, nas escolas inadequadas, na ausência de saneamento básico em pleno século XXI, no descaramento do racismo, do neonazismo e no discurso da meritocracia que inibe o pobre diante dos púlpitos.

O Brasil tem um fundamento que não reconhece a cidadania. É transformar cada pessoa em um objeto menos importante que o lucro, que as barganhas políticas, que o cartão corporativo, sem qualquer pesar pela miséria ao lado. Não é à toa que homens tornam-se selvagens diante de alguém que quer apenas receber o que lhe é de direito: o salário.

Disse Milton Santos: “Olhando-se o mapa do país, é fácil constatar extensas áreas vazias de hospitais, postos de saúde, escolas secundárias e primárias, informação geral e especializada, enfim, áreas desprovidas de serviços essenciais à vida social e à vida individual. O mesmo, aliás, se verifica quando observamos as plantas das cidades em cujas periferias, apesar de uma certa densidade demográfica, tais serviços estão igualmente ausentes. É como se as pessoas nem lá estivessem”. É o DIREITO inerente visto como mercadoria em um brutal ato de desumanização.

Existe, então, esperança? Impressiono-me com essas pessoas marginalizadas levantarem-se mais uma vez aqui ou ali, em Petrópolis ou na Amazônia, nos cantos das metrópoles ou na saída das prisões, no seu lugar onde há afeto, ou, até mesmo, em um novo lugar, refazerem a sua alma e tentar mais uma vez. É a luta pela cidadania para os seus, não para o Brasil que, insistentemente, lhes quer negar.

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