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A ampulheta e a concha, um peixe para a água limpa

Aqui, brincando com as palavras feito um menino e sua pipa, dou mais linha ao fio da Vida, desejo coisas impossíveis, sonho meu destino futuro. E porque sonho, ainda quero a grande concha marinha que um dia desejei na infância. Talvez como um símbolo de teimosia, talvez como uma metáfora de que resisto à acomodação e à sensação de “dever cumprido” a que me recuso em nome da existência de que sou dona e que, portanto, me dá o direito de recomeçar todos os dias sem medo. Todos os dias é pouco, mas a cada minuto.

Sem medo?Coisas tão raras me cercam e me sustentam; sou este bípede com medo e com memória neste mundo coberto por poluição, grandes explosões, bombas, convulsões e guerras. E, assim, de repente, quero aquela concha a que nunca tive direito, levá-la devagar ao ouvido, música que por enquanto não sei ouvir.

O que desejam os seres humanos? A ampulheta e sua areia, o livro e seu poema, a cura e a perplexidade que se segue.

Uns querem ganhar na loteria, de preferência sozinhos; outros querem uma agulha e sua linha, o luxo e sua escuridão, a terra e suas sementes, a flor e suas raízes. Desejamos tantas coisas inúteis porque o tempo apaga, fecha a porta e tranca as janelas.

Outros, pobres coitados doentes da alma, nasceram para invejar, destruir, desamar. Quase ninguém nasceu para reverenciar a árvore e sua casca, a abelha coberta de pólen, a gota de mel que escorre. Pobre Terra que há muito fez um astronauta russo gritar, em órbita, à primeira vista do nosso planeta: “A terra é azul, a Terra é azul, a Terra é azul…”

Hoje, quinta-feira , sinto-me tão vazia; doem-me os tiros que não levei, os sustos do viver, a alegria que guardei para depois. Dói-me a poeira de Beirute, a explosão de Hiroxima, a poluição das praias do litoral: óleo negro saído da barriga do oceano. Dói-me um mundo sem heróis e os falsos fazendo leis, ordenando fatos, criando tumulto.

Daí que ampulheta e concha se embaralharam dentro de mim e viraram uma cornucópia de vida, esta grande concha de onde fluem todas as coisas, laranjas e moedas, pássaros e trigo, uva e flores, leis e insurgências. E penso, enquanto digito, que tudo mudará um dia e que a grande janela planetária se abrirá :” Eis o mundo, Deméter, à nossa porta.”

Então, mansos, suaves, éticos e justos, recomeçaremos. A primeira semente cairá sobre a terra cheirosa, a primeira chuva virá sem enchentes e injustiças e o mundo renascerá: o peixe para a água limpa, o trabalho para o trabalhador, a amigo para o solitário e a justiça para os sem defesa.

Esther Rosado

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